quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Falar



Mais uma vez publico um texto da Martha Medeiros - FALAR, apenas por tê-lo recebido e me identificado plenamente, no dia de hoje, em que tomei a decisão de FALAR... Me expor... Sem me preocupar com o que vai acontecer...

"Já fui de esconder o que sentia, e sofri com isso. Hoje não escondo nada do que sinto e penso, e às vezes também sofro com isso, mas ao menos não compactuo mais com um tipo de silêncio nocivo: o silêncio que tortura o outro, que confunde, o silêncio a fim de manter o poder num relacionamento.
Assisti ao filme Mentiras sinceras com uma pontinha de decepção - os comentários haviam sido ótimos, porém a contenção inglesa do filme me irritou um pouco - mas, nos momentos finais, uma cena aparentemente simples redimiu minha frustração. Embaixo de um guarda-chuva, numa noite fria e molhada, um homem diz para uma mulher o que ela sempre precisou ouvir. E eu pensei: como é fácil libertar uma pessoa de seus fantasmas e, libertando-a, abrir uma possibilidade de tê-la de volta, mais inteira.
Falar o que se sente é considerado uma fraqueza. Ao sermos absolutamente sinceros, a vulnerabilidade se instala. Perde-se o mistério que nos veste tão bem, ficamos nus. E não é este tipo de nudez que nos atrai.
Se a verdade pode parecer perturbadora para quem fala, é extremamente libertadora para quem ouve. É como se uma mão gigantesca varresse num segundo todas as nossas dúvidas. Finalmente se sabe.
Mas sabe-se o quê? O que todos nós, no fundo, queremos saber: se somos amados. Tão banal, não?
E no entanto esta banalidade é fomentadora das maiores carências, de traumas que nos aleijam, nos paralisam e nos afastam das pessoas que nos são mais caras. Por que a dificuldade de dizer para alguém o quanto ele é - ou foi - importante? Dizer não como recurso de sedução, mas como um ato de generosidade, dizer sem esperar nada em troca.
Dizer, simplesmente.
A maioria das relações - entre amantes, entre pais e filhos, e mesmo entre amigos - ampara-se em mentiras parciais e verdades pela metade. Podem-se passar anos ao lado de alguém falando coisas inteligentíssimas, citando poemas, esbanjando presença de espírito, sem alcançar a delicadeza de uma declaração genuína e libertadora: dar ao outro uma certeza e, com a certeza, a liberdade. Parece que só conseguiremos manter as pessoas ao nosso lado se elas não souberem tudo. Ou, ao menos, se não souberem o essencial. E assim, através da manipulação, a relação passa a ficar doentia, inquieta, frágil.
Em vez de uma vida a dois, passa-se a ter uma sobrevida a dois. Deixar o outro inseguro é uma maneira de prendê-lo a nós - e este 'a nós' inspira um providencial duplo sentido. Mesmo que ele tente se libertar, estará amarrado aos pontos de interrogação que colecionou.
Somos sádicos e avaros ao economizar nossos 'eu te perdôo', 'eu te compreendo', 'eu te aceito como és' e o nosso mais profundo 'eu te amo' - não o 'eu te amo' dito às pressas no final de uma ligação telefônica, por força do hábito, e sim o 'eu te amo'que significa: 'seja feliz da maneira que você escolher, meu sentimento permanecerá o mesmo'.
Libertar uma pessoa pode levar menos de um minuto. Oprimí-la é trabalho para uma vida.
Mais que as mentiras, o silêncio é que é a verdadeira arma letal das relações humanas."



Bjôoooo

4 comentários:

Sonia Regly disse...

Estou com a Martha.Eu tb falo o que sinto, não sei esconder. Obrigada pela doce visitinha.VC é uma amor!!!beijos.

June A disse...

Se o silêncio mata? Muito mais que faca e bala.

Prefiro me arrepnder do que disse do que passar vida sonhando com o que poderia ter sido se eu tivesse falado.

Bjujxxxx

Depois dos 25, mas antes do 40! disse...

Eu nem conhcia a Martha Medeiros. Até que me recomendaram O Divã, seu primeiro romance. Estou aprendendo a gostar dela... Mas este texto é ótimo!

Beijocas

Bruxa Beiçola disse...

Poxa, amei esse blog!!!! e concordo com o que você escreveu antes de publicar o texto da Martha Medeiros.Não sei o que muda, mas tem um dia que a gente perde o medo e a vergonha, e passa a falar, mesmo correndo o risco de parecer frágil e boba. Enfim, me identifiquei com eu blog... deve ser coisa de aquariana...rs

Beijos